O texto, meus amigos, está sem sal. Na cozinha ou servido à mesa, está faltando tempero, um tempero chamado identidade textual. O borogodó, sabe? Sim, senhor. Texto tem que ter borogodó e sal, muito sal – já que os olhos e o cérebro ainda lidam bem com questões renais.

Bom se pudéssemos, todo dia na hora do almoço, nos abastecer de palavras goela abaixo no modelo self-service. Ao contrário disso, o que temos é uma metralhadora visual chamada timeline que mais parece aquela máquina de lançar bolas de tênis, sabe? Pior que rodízio de pizzas, carnes, batata-frita, nuggets e opções orientais. Não sabemos o que ler primeiro e a nossa raquete, coitada, não rebate bola nenhuma. A gente lê o que aparece, sem critério – e o que se produz anda sem critério também. Esse é o ponto. Os textos que lemos são todos requentados – nada contra a marmita nossa de cada dia, mas quem não prefere comida quentinha?

Ainda que o texto seja só mais uma receita do cardápio, só deixaremos o prato limpo depois de provar o início do texto e ter certeza de que ele dará aquela piscadinha final com um sorrisinho de canto de boca que faz a gente se manter por ali, certos de que a vida é muito curta para ler coisas ruins. Caso contrário: texto ruim?, próxima aba. Ou melhor, o cardápio de novo, por gentileza. E se o self-service não apetece, justamente por causa da grande quantidade de opções de palavras para agradar a todos os gostos, que venha a gourmetização do texto: a arte de transformar ingredientes anônimos em artigo de luxo, acompanhado de vinho à altura. O problema é que existe uma diferença entre informação requintada e informação requentada com design refinado e vocabulário rebuscado. A comunicação multiplataforma pede a versatilidade do self-service, a criatividade gourmet e o artesanato da quentinha. Ainda assim, a fórmula não parece infalível.

Faltou o texto da esquina com aura de esconderijo, sabe? Aquele restaurante que só você conhece e não troca por nada. Aquele bar predileto, aquela loja exclusiva. Ou, se o assunto é comida, aquela nota de fundo de noz moscada que sua mãe coloca no purê de batata e você não conta nem por reza para as visitas. O texto-comidinha-da-esquina é aquele que caiu no seu gosto por ocasião do destino e da localização, mas passou a fazer parte do seu dia a dia por uma questão de afinidade – é aquela que não troca o tempero e também não escancara o cardápio, mas mantém a qualidade, nada de produção em massa. É a esse restaurante que você não deixa de ir – é este o significado de conteúdo de relevância.

Perguntem o tempero de seu colunista predileto e, se ele não contar, promova um processo de investigação artística.
Chega de engolir textos. Em tempos de conteúdo irrelevante, a novidade pode até ter perdido valor, mas aguçar o paladar do leitor é fundamental. Nosso estômago agradece.

A autora

Julie Fank é mestre em letras, roteirista, revisora, editora e consultora em linguagem – não necessariamente nessa ordem. Atua na direção criativa da Editora Dot e na direção de redação da Revista ONE. É ela quem ministra o curso de Redação Criativa na Aldeia e, apesar do paladar chato, prefere pastiche ao pistache.

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